| INFÂNCIA
DOURADA Carlos Gouveia "Goia" Dia
17 de Maio. A velha Cidade das Acácias Rubras está em festa. Festeja
os seus 386 anos de idade. Caminhar e retornar aos nossos caminhos antigos de
espinheiras bravas e jingolotes silvestres; voltar aos matrindindes gigantes ali
para os lados da Camunda; voltar aos sonhos de menino perdido pelas hortas do
Cavaco na caça implacável ao Siripipi e Janjans; às espinheiras
e amendoeiras em flor e as gajajas amarelinhas em cachos baloiçando na
árvore da vida. Uma salutar vivênca de cerca de 60 anos consecutivos
aqui na secular O'mbaka. Por isso, conheço toda a gente. Desde os ternos
anos de escola na zona escolar, pertinho do "Jornal de Benguela", passando
pela bicicleta "Philips"coçada e desengonçada de "Cobrador
de Promessas" e chegando aos campos da bola em futebois renhidos; na pujança
da vida. Hoje
deambulo pelos meus bairros íntimos de uma infância dourada e volto
a sonhar: - Encontrei a minha Mamã Chica no Bairro Benfica, na Rua 12 ao
fundo da rua onde a rua é menos funda; ali vive os últimos anos
de vida. Herança?, nenhuma! Só a tristeza profunda e as pernas trópegas;
os seios mirrados baloiçando como múkuas pendentes e ressequidas
quase a soltarem-se do velho tronco de imbondeiro... Convido-a a ver a sua cidade
em festa, a vir comigo nos bons tempos da "prece". O
chão de terra onde caminho é o mesmo dos tempos de criança
traquina perdida nas mangeiras do "Fortes" ou nas casuarinas do matadouro
municipal em busca do catuitui azul celeste de porte altivo e independente. Cruz-me
com rostos velhos e novos e cntinuo a sonhar: - Ali está a Velha Margarida,
quitandeira no Cassoco, uma vida inteira vendendo ilusões debeixo do imbondeiro,
sentada numa esteira encardida, levando nas costas o neto mais novo achatando
o nariz nos ossos das costas húmidas de transpiração azeda;
Mabengo coxeando, acarretando água no barril servido a vinho tinto importado
por comerciantes barrigudos, abrindo a boca e gaguejando, implorando meia-cinco
para quimar o peito no botequim da esquina do branco que não gostava de
muzongué; Zita chorando ainda o homem que amou, falecido há tantos
anos, deixando-a sozinha, com seis filhos para criar e um coração
pequeno para tão grande infortúnio e a noite toda escura e os filhos
morenos dormindo ou chorando na esteira dura; miúdo cambaio, filho da Josefa
que foi preso pelo cipaio quando tirava a cana docinha no "Cama-Couve"
que passava devagarinho no Bairro da Fronteira, gritando de "pouca-terra,
pouca-terra"; velha Bumba, quantos anos?, rugas densas tapam os olhos cansados
de esperar, a cubata estremecendo com as viagens constantes do combio-da-cana
a meter medo ao coração velho e aos alicerces de adobe. Velho Matias,
alfaiate de primeira, ali na Rua 7 do Bairro Benfica que toda a gente conheceu;
Mãezinha dormindo a noite inteira no seu colchão de bimba embalada
de leve, levezinho, como samaúma, como foram os seus sonhos de menina;
velha Palmira as 3 da madrugada no Bairro da Massangarala, surpreendida com as
chamas da fogueira que a chuva não apagou; Jaja, rainha do carnavla enchendo
a cidade de beleza e cor com os seus movimentos febricitantes de dança
e prazer; o Bernardo, pescador de linha do Capiandalo, engolido com a chata numa
noite de calema; Chivera, dormitando no velho cambriquite do amor sempre que anoitecia;
o Jamba dos dentes de marfim, companheiro das brincadeiras das areias finas das
praias do sul; Binga, Baía dos Elefantes, perdidas pescarias da costa sul
cheias de homens contratados no tempo de sofrimento; Zilita, morena gostosa das
farras do Timóteo ou no Salão Carioca. Era
o tempo do sol sem comprimento, ardente e acolhedor, este "Utanha Watua"
da poesia e do amor, quando as nossas mãos ágeis amassavam o bairro
do nosso deslumbramento. Havia lagoas de répteis remexendo noite adentro;
grilos estripulavam no silêncio; o som vibrante entrava-nos pelos ouvidos
ferindo os tímpanos; havia ainda a demora de um comboio atrevido, num apeadeiro
em ruínas e essa esperança ínvia de estar de pé sem
aflição para as trevas do envelhecer; sem que derrotassem os nossos
excessos e as fantasias da idade; havia amor, lealdade; convívio! Havia
Mamã Chica e o doce de ginguba bem torrada, havia muitas vavos distribuindo
gajajas do nosso encantamento. Deixo
de sonhar e volto à realidade dos dias presentes. Benguela está
em festa e encontra-se num ciclo de festividades atraentes. Jovens prometem a
continuidade e a garantia de vida e esperança para o futuro. ELes por aí
andam, ávidos de saber, estudando com a força de donos da vida em
jornadas positivas, comprometendo-se com os anseios da terra e com todos os seus
problemas . A vida cada vez mais bairrista e unida. É justo fazer a sua
história contando estórias do antigamente. Nos trezentos e oitenta
e quatro anos da minha cidade, deixo de sonhar, e de contador de factos já
passados há muitas luas, enfrento a realidade do dia-a-dia corrente cheio
de incógnitas e de esperança. Todas
as cidades do mundo não são mais belas que a cidade onde vivo porque
elas não são a cidade onde vivo! E Benguela é a cidade onde
sempre vivi e senhei e vivo e sonho! Benguela,
17 de Maio de 2003 Carlos Gouveia "Goia" |